Pão e Circo

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Semana passada, eu conversava com meu colega e amigo, Juliano, parceiro de Bloco, sobre arquitetura e emoção. Juliano, recém-chegado de um feriadão em São Paulo, falava, empolgado, sobre como a arquitetura, dentre todas as artes, era a que mais o emocionava. Eu, em silêncio, admirava a empolgação dele e pensava sobre o quão dura havia me tornado nos últimos tempos. Perguntei para ele o que sentia quando experienciava essa tal emoção – afinal, eu sempre me considero tão insensível em relação ao belo… Ele disse que, quando algo o emocionava, não conseguia parar de pensar. Lembrava do edifício a todo tempo, como uma idéia fixa. A resposta, de certa forma, me surpreendeu. É que mulher costuma associar a emoção às lágrimas. Aliás, emoção dessas, de mulherzinha, eu senti mesmo foi quando vi “O Beijo”, de Gustav Klimt. Fiquei paralisada na frente do quadro, exposto no Belvedere, em Viena. Com um nó na garganta, segurei-me para não chorar, porque meu irmão estava junto. E eu não sei bem o porquê, mas não choro na frente de ninguém da minha família. Agora, edifícios não me levavam às lágrimas. Juliano, então, falou-me sobre o vão do MASP. Relatou-me sobre como aqueles 74 metros de vão livre foram capazes de emocioná-lo. E foi aí que me dei conta de que uma das mais recentes – e fortes – emoções que eu senti aconteceu justamente ali, depois do almoço no restaurante do museu paulista. Entretanto o que eu queria mesmo era contabilizar as experiências exclusivamente arquitetônicas. Aos poucos, comecei a vasculhar a mente e o coração e encontrei minha primeira vez na Grand Place, em Bruxelas; um fim de tarde no Capitólio, todas as vezes em que entrei no Pantheon; a Fábrica de Turbinas do Peter Behrens, em Berlim (como é difícil de chegar!); o Convento de La Tourette; o Pavilhão do Mies…

Só que todas essas impressões fortes poderiam ser atribuídas ao fato de que eu sou professora de História da Arquitetura, e que visitar os edifícios que mostramos em aula é sempre muito legal.

Neste sábado, no entanto, a coisa foi diferente. Fui visitar o recém-inaugurado Museu do Pão, na cidade de Ilópolis, com um grupo de estudantes e colegas da Feevale.

Acostumada a viajar por lugares como Roma, Paris, Berlim, Barcelona, Viena, etc. fiquei muito surpresa e encantada por ter encontrado, na interiorana cidadezinha gaúcha, uma jóia da arquitetura brasileira.

O tempo não estava ajudando. Chuvoso e frio, para surpresa da maioria, que tinha deixado, de mangas curtas, uma quente Novo Hamburgo, três horas antes. Só que, mesmo abaixo de mau tempo, os olhos de todos se iluminaram por causa da tal emoção sobre a qual me falava o Ju alguns dias antes.

O grupo de estudantes era formado por alunos de diversos adiantamentos no curso. Os mais velhos, na ida, reclamavam porque já não conheciam quase ninguém. E os mais novos, debutando em grande estilo. Todos, entretanto, pareciam estar em igualdade de condições para entender a importância daquele dia.

Na chegada, fomos recebidos pelo simpático Ismael. Ismael é uma espécie de Tatoo da “Ilha da Fantasia” de Ilópolis. É extremamente atencioso com todos, demonstra competência e conhecimento da arquitetura, do museu, do pão, das boas maneiras. Transformou-se num verdadeiro mestre de cerimônias da cidade e, mantendo a analogia com o seriado da década de 80, representa a altura seu “Sr. Roarke”, Marcelo Ferraz.

E foi Ismael que nos pegou pela mão e conduziu pelo belo conjunto de Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz, que inclui o Museu do Pão, a Oficina de Panificação e a restauração do Moinho Colognese.

Vendo de fora, talvez por causa das cortinas vermelhas, um Pavilhão Alemão de concreto, em plena colônia italiana. Mas isso se a arquitetura só se percebesse com os olhos. Aprendi com meu caro amigo Ricardo, entretanto, que a arquitetura se vê também com os olhos da pele. E é aí que o singelo Museu do Pão ganha do renomado projeto de Mies. À lisura dos planos neoplasticistas, se opõe a variedade de texturas do concreto combinado à madeira. Tudo bem que no pavilhão tem o travertino (e eu, como moro em Roma, adoro travertino!). Só que a pedra, no prédio de Barcelona, está mais ao alcance dos pés do que das mãos. E no museu gaúcho a riqueza do tato está francamente entregue ao toque dos dedos. Eu não me arriscaria a dizer qual dos edifícios é melhor. Acho a comparação injusta. Mas me diverti muito mais no museu.

Tudo parece ter sido pensado com carinho. E é isso que faz a diferença, já que o cuidado dispensado à arquitetura transpira a cada detalhe do projeto, seja na escolha do logotipo do museu – uma antiga pintura encontrada numa das casas da região, na peraltice de optar por apenas três apoios para segurar a laje da sala de exposições, no projeto do corredor avarandado que margeia a oficina de panificação, no desenho das maçanetas, ou em tantos outros pormenores dos edifícios.

E é o Ismael que transforma o museu em teatro. Manipula as cortinas vermelhas do pequeno auditório como se as estivesse abrindo para permitir o início de um grande espetáculo. Promove cada elemento do projeto a protagonista de uma mise en scène do pão e da arquitetura. Desliza os painéis de madeira que protegem a fachada de vidro de maneira a preparar o prédio para as fotos, como quem arruma o cabelo de uma modelo. No antigo moinho, transforma a demonstração da moagem de milho numa excitante experiência, elevando os espectadores a agentes do processo. Tudo com muita alegria e empolgação. E é aí que o pão encontra o circo. Não da maneira alienante preconizada pela política dos antigos imperadores romanos, mas sim na melhor acepção da expressão, que alude, neste caso, à diversão proporcionada pela cultura e identidade de um povo associadas à boa arquitetura e ao respeito pelo lugar.

Disposto a conversar com todos o tempo todo, nosso anfitrião, que é nativo de Ilópolis, tem um discurso surpreendente sobre os critérios de excelência da arquitetura, mas não se limita a falar do edifício. Conta sobre a importância do processo de restauração do moinho e de construção dos novos edifícios, do envolvimento das pessoas do lugar com o trabalho, de como o projeto todo contou com o comprometimento da comunidade. Ainda que boa parte dos moradores da cidade tenha estranhado as formas dos novos edifícios e muitos ainda hoje pensem que o museu está inacabado (afinal, não tem reboco, revestimento, e tal…), quase todo mundo já reconhece a importância do novo Museu do Pão.

No final do passeio, somos conduzidos à Bodega do Moinho. Enquanto no Pavilhão do Mies nos deparamos com as belíssimas e clássicas Poltronas Barcelona (nas quais não se pode sentar), na bodega, podemos nos acomodar em cadeiras de Lina Bo Bardi. Marcelo trabalhou com a arquiteta no começo da carreira e hoje produz os móveis projetados com ela em sua Marcenaria Baraúna. Acho lindos esses encontros. Certamente a arquiteta ítalo-brasileira teria ficado satisfeita de ver uma cidade 98% descendente de italianos tornar-se palco para a arquitetura brasileira de melhor qualidade. Itália e Brasil, neste caso, unidos também pelo convênio que possibilitou a restauração do museu.

“Cadeiras de Lina Bo Bardi”. A última vez que havia me sentado numa delas foi justamente naquele almoço do MASP. Dei-me conta de que não sou tão empedernida como achava. Afinal, desde ontem não consigo parar de pensar. Pensar no surpreendente museu, no belo dos encontros da vida, como aquele dos italianos com os brasileiros. No encontro de Marcelo e Lina, no encontro de Lina com Ilópolis através de Marcelo. E do meu encontro com o pão. E com o circo da boa arquitetura. Sobre o pão, o museu e a arquitetura acho que os Titãs é que tinham mesmo razão: “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte.”

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6 Respostas to “Pão e Circo”

  1. Prof. Arq. Juliano Vasconcellos Says:

    Este texto me emocionou!

  2. Ana Schirmer Says:

    Já estava curiosa e ansiosa para ver o Museu do Pão – não pude ir porque estava assoberbada de coisas para fazer no final de semana.
    E agora mais esse texto…

    Sexta à noite li o texto ” A magia da profissão”, do Sérgio Teperman na revista AU desse mês e pensei muito em tudo de bom que temos estudando arquitetura e exercendo a profissão.
    Mas esse ponto de vista da profª. Ana Carolina de estar no meio arquitetônico e vivenciar as emoções promovidas por ele foi o que mais mexeu comigo. É estar no lugar-arquitetura, fazer diversos links com informações recebidas ao longo da vida e ver um “filmezinho” passando.

    Excelente!

  3. Prof. Arq. Rinaldo Barbosa Says:

    Emocionado com o texto, BRAVO!!!!!
    Comecei o comentário e virou post, porque estava longo demais!
    Compartilhar com vocês este prazer pela arquitetura me emociona tanto quanto a arquitetura!

  4. Gláucio. Says:

    MARAVILHOSO o texto.
    Descreve exatamente o que eu também senti, um estudante ainda no começo do curso, eu diria.
    Por diversas vezes me vi arrepiado com tamanho cuidado. A textura, o tratamento… dava até pra sentir os veios da madeira encravados no concreto.
    É notável a integração do projeto com a comunidade, e à comunidade. É realmente um convite a entrar e participar das atividades que ocorrerão lá dentro. Isso sem citar as outras N qualidades do projeto que já foram descritas nas revistas nas quais foi publicado, e que os professores citaram aqui no blog mesmo, e em outros meios.
    Simplesmente, FANTÁSTICO.

  5. Comentou, levou! Livro do Museu do Pão « Blog Arqfeevale Says:

    […] Museu do Pão continua rendendo! Agora, a primeira pessoa que comentar aqui neste post levará inteiramente […]

  6. 2º Fórum Pró-Patrimônio Cultural « Blog Arqfeevale Says:

    […] e autor de um dos projetos mais importantes deste ano, o Museu do Pão (https://arqfeevale.wordpress.com/2008/04/28/pao-e-circo/), em Ilópolis, que aliou arquitetura, resgate histórico e turismo. ARQ. BETINA ADAMS, do IPUF – […]

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