Archive for the ‘Arquitetura Contemporânea’ Category

Jogos Olímpicos – “O Dragão”

quarta-feira, 28 maio, 2008

Seguindo a série de posts sobre as obras realizadas na China para os Jogos Olímpicos, elaboro aqui uma “versão brasileira” de um post recente do melhor site sobre arquitetura no Chile, o Plataforma Arquitectura.

Foster and Partners - Beijing International Airport 7
Plano geral do Aeroporto de Pequim – Foster+Partners (clique para ampliar).

A poucos meses do início dos Jogos Olímpicos de Pequim, foi inaugurado o novo aeroporto da cidade, obra do escritório londrino Foster + Partners.

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Este aeroporto, atualmente o maior do mundo, foi uma encomenda desafiadora para o escritório de Foster, tanto pelo prazo apertado de desenvolvimento do projeto, como pelos desafios que implica um terminal aéreo de 3,25km de comprimento: eficiência operacional, transporte interno, conforto dos passageiros, luz natural, eficiência energética e proteção sísmica. Como é usual neste tipo de demanda, Norman Foster respondeu à altura.

Foster and Partners - Beijing International Airport 4

Há também um aspecto deste projeto que chama a atenção (e que sempre era tema dos outros posts da “série”), como tudo que está sendo construído com os megaprojetos na China: a forma figurativa, neste caso de um dragão, como se pode ver no render acima. Este tema, muitas vezes desdenhado pelos arquitetos, neste projeto se torna algo importante frente a este cliente, já que é uma imagem absolutamente arraigada em sua tradição.

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Sobre a rapidez com que se teve que conceber o projeto, vale mencionar que após quatro meses de terem sido confirmados como vencedores do concurso, o escritório deslocou uma equipe até Pequim para concluir os mais de 2.500 desenhos. No canteiro de obras trabalharam 50 mil operários, que conseguiram tirar da prancheta 1,3 milhões de metros quadrados em apenas quatro anos.

Apesar de ser um projeto de grande escala com um programa complexo, ele foi resolvido através de uma espacialidade clara e aproveitando ao máximo o perímetro do edifício. O espaço interior se unifica graças às conexões visuais ao longo de todo o aeroporto entre o primeiro nível e o mezanino superior. Estes espaços são iluminados de maneira natural graças ao uso do vidro e dos zenitais triangulares.

Beijing_airport-7

A cobertura que unifica todo o aeroporto possui uma colunata que evoca os templos chineses, e como pode se ver nos cortes, é curvada para poder configurar um grande espaço no centro, e espaços mais controlados nas laterais.

Sobre o aspecto energético, o maior aeroporto do mundo incorpora diversos conceitos de controle passivo como os zenitais orientados ao sul-leste para ganhar calor durante a parte da manhã e um sistema de controle de energia para reduzir o gasto com iluminação artificial.

Aeroporto_spine_section

Para conhecer melhor o projeto, vale assistir ao documentário do Discovery Channel sobre o aeroporto que está no YouTube. Com depoimentos do próprio Foster (e imagens do gigantesco escritório às margens do Tamisa), pode-se entender como é o desafio de se conceber uma obra deste porte. A primeira parte do vídeo está abaixo:

  • Mais informações e imagens do projeto aqui e aqui.
  • Site oficial aqui.
  • Fotos no Flickr aqui.
  • Outros posts sobre Pequim no Arqfeevale: aqui e aqui.
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Sugestão de leitura

terça-feira, 13 maio, 2008

ScreenShot

Building Design, World Architecture 100 | 2008.

Revista com 68 páginas, totalmente digital, na íntegra (inclusive com aquele recurso de “flipbook”). Traz na capa uma reportagem com Norman Foster, tido como o arquiteto que lidera o escritório mais admirado do mundo (segundo pesquisa da própria publicação). Aos 70 anos, Foster declara na matéria o que pensa sobre o sucesso:

“The principles behind this are almost naively simple – if you do something well, success will follow.”

Além de Foster a revista possui outras matérias bem atuais sobre projetos em andamento no mundo todo. Vale uma espiada (clique na imagem)!

Via vistadoobservador.

Ainda há esperança

quinta-feira, 8 maio, 2008

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Não vou me alongar. Recomendo a visita ao Arco Web que traz na capa do site uma chamada para esta casa, projeto recém concluído de Gustavo Penna em Nova Lima/MG.

Chama a atenção a qualidade dos espaços internos:

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Museu do Pão e agora esta casa. Ainda há esperança de boa arquitetura no Brasil.

Projeto em Cingapura de Foster + Partners

terça-feira, 6 maio, 2008

Via Inhabitat

Fostersingapore_5

A imagem acima mostra a foto-inserção do mais novo complexo projetado pelo escritório de Norman Foster em Cingapura. São 150 mil metros quadrados de uma construção multifuncional, com centro comercial e cívico, apartamentos, hotéis e um “link” verde para uma estação de MRT.

Fostersingapore_4

Vencedor de um concurso internacional, o projeto irá preencher um quarteirão inteiro da cidade. Todas as fachadas serão equipadas com células solares e, para auxiliar na captação de energia, a luz direta do sol será filtrada por uma superfície ondulada em forma de fita, que cobre a superfície oeste das torres e as atividades ao nível do solo (ver esquema completo de corte na imagem ao lado).

O projeto ainda contempla um sistema de arrefecimento através da captação dos ventos dominantes, grandes jardins e espaços verdes (que também são importantes componentes das torres). O complexo coloca em prática conceitos simples de arquitetura sustentável (como captação de energia solar passiva), mas também não deixa de lado a sua expressão arquitetônica, com planos sinuosos e superfícies complexas que compõem uma fusão entre o “design verde” e uma arquitetura de linguagem dinâmica, leve e absolutamente contemporânea.

O novo símbolo da capital

segunda-feira, 5 maio, 2008

Capa-vejaPorto Alegre já teve um “concurso” com eleição popular para a escolha do símbolo da cidade. Lembro que na época concorria a estátua do Laçador, o Monumento aos Açorianos e até o Pôr-do-Sol do Guaíba, entre outros. Se não me falha a memória, fora o Centro Administrativo e a Usina do Gasômetro, não havia nenhum outro objeto arquitetônico que pudesse representar Porto Alegre, como são os casos a Capela da Pampulha em Belo Horizonte, o Copan em São Paulo ou o Cristo Redentor no Rio de Janeiro (sim, considero a estátua oca uma obra de arquitetura, por incrível que pareça).

Há duas semanas chegou às bancas a revista Veja Porto Alegre, que indica os melhores lugares para se comer e beber na cidade. Nesta edição, ela estampa na capa (o padrão para todas as cidades nesse ano é uma “arte de Photoshop” dentro de um prato) o Museu Iberê Camargo, projeto de Álvaro Siza que está com inauguração marcada para o dia 30 de maio.

Mesmo que o museu não tenha caído no gosto de 100% dos moradores da capital, é inegável que sua forma e localização não deixam passar como um objeto qualquer. A quase inexistência de aberturas e o concreto branco da obra já renderam até o apelido de “bunker na beira do Guaíba”, e mesmo assim figura na capa da revista que representa o que tem de melhor na cidade (pelo menos em gastronomia e afins), como mais novo símbolo de Porto Alegre.

O gancho deste post é que o próximo Sabadarq na Estrada será em Porto Alegre, e terá o Museu Iberê Camargo como uma das obras visitadas (já está quase tudo certo). Nos próximos dias divulgaremos aqui no blog mais detalhes da viagem, inscrições e do roteiro de visitação.

  • Leia uma entrevista de Álvaro Siza sobre o projeto do museu aqui.
  • Visite o site da Fundação Iberê Camargo aqui.
  • Veja fotos da obra do Museu Iberê Camargo aqui (Flickr).

Museu projetado por Richard Meier em Roma pode mudar de lugar

quinta-feira, 1 maio, 2008

Via AFP
Ara Pacis

Fachada principal do Museu Ara Pacis. Imagem: Pushpullbar

O novo prefeito de Roma, o ex-neofascista Gianni Alemanno, anunciou nesta quarta-feira que vai trocar de lugar (?!?!) o museu projetado pelo arquiteto americano Richard Meier, situado no coração do centro histórico de Roma, construído no mandato do prefeito esquerdista Walter Veltroni. O museu foi inaugurado em 2006.

Imagem internaA nova construção, que gerou fortes críticas por parte da direita (e também de alguns arquitetos pela falta de integração com o entorno), foi concebido sobre o “altar da paz” [Ara Pacis] concebido pelo imperador César Augusto próximo do rio Tibre no ano 13 a.C e consagrado em 30 de janeiro de 9 a.C. O altar, um pequeno templo de mármore banco construído para homenagear a paz alcançada pelo imperador Augusto com os gauleses e Espanhóis, foi coberto por uma obra típica de Richard Meier (foto).

Anunciou Alemanno durante a sua primeira entrevista à imprensa:

“É preciso tirar dali o museu de Meier. Não está entre nossas prioridades, mas nos comprometemos a revisar as intervenções feitas no centro histórico”

Trata-se da primeira grande obra de arquitetura contemporânea realizada no centro histórico da cidade após o fim da Segunda Guerra Mundial e sua construção gerou numerosas polêmicas.

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Proximidade da Catedral de São Pedro e o Ara Pacis. Imagem: Google Earth (Clique para ampliar)

Na inauguração, em abril de 2006, Alemanno havia denunciado “a arrogância dos intelectuais de esquerda para com os cidadãos” por terem permitido a construção de uma estrutura moderna sem ter consultado a população. Alemanno declarou também que o museu deverá ser transferido para um bairro periférico.

  • Veja reportagem sobre o Museu Ara Pacis no New York Times, que julgou o trabalho de Meier como uma “falha” e “grande decepção” clicando aqui.

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“Dubairquitetura”

terça-feira, 29 abril, 2008

Dubai, o segundo maior emirado dos Emirados Árabes (um dos temas mais recorrentes daqueles e-mails com PowerPoint que recebemos todos os dias) pode ser considerado o maior canteiro de obras mundial.

Não é mais novidade o grande número de obras “pitorescas” que são divulgadas a cada dia, na maioria de gosto duvidoso. Algumas informações apontam que em Dubai estão 30% dos guindastes da construção civil mundial e que, ao contrário do que se pensa, o petróleo representa pouco mais de 5% da economia do emirado. A atividade que mais arrecada por lá é o turismo, com 33% da participação na economia, e cada vez mais a arquitetura “diferente” é o que motiva o crescimento turístico local.

Por mais incrível que pareça (ou não), entre os arquitetos mais atuantes por lá estão Rem Koolhaas e Zaha Hadid, que ultimamente parecem ser os representantes de uma “grife” dessa arquitetura escultórica e “espetaculosa” (com diriam aqueles árabes de novela). Circulou no ano passado imagens de um projeto esférico de Koolhaas em Dubai que tinha muita semelhança com a Estrela da Morte de Star Wars:

Fonte da imagem: Guardian

A esfera de 44 andares que parece estar flutuando na água é o Ras al Khaimah Convention and Exhibition Centre, projeto de 2006. Recentemente, o site Grivestmor identificou uma “referência formal” anterior ao desenho do “arquiteto” Darth Vader:

Fonte da imagem: Grivestmor

É um rádio da Panasonic de 1972, desenhado cinco anos antes do primeiro filme de Guerra nas Estrelas.

No Slideshare, além dos slides que recebemos todos os dias, encontrei essa apresentação com 86 lâminas com os principais objetos que estão sendo ou serão construídos em Dubai:

Clique no botão da direita para ver em tela cheia

  • Será que vale termos mais uma Disneylândia arquitetônica (Las Vegas é outro tipo, mas está dentro do gênero) apenas para satisfazer o desejo do arquiteto de concretizar suas aspirações formais? Ou a cidade não é lugar para uma gigantesca exposição de esculturas? Dê sua opinião nos comentários!

ATUALIZADO (02/05/08):

Não poderia deixar de postar essa foto:

Dubai em 1990

Dubai em 1990!

E esse site: http://www.dubai-architecture.info/

Museu do Pão, farinha de outro saco: o da ARQUITETURA!

segunda-feira, 28 abril, 2008

ARQUITETONICAMENTE 1

UMA QUESTÃO DE EMOÇÃO

Para entender um pouco deste atrapalhado e apaixonado texto é obrigatória leitura dos posts da Profa. Ana Carolina, do Prof. Juliano Vasconcellos e o comentário do Prof. José Arthur.

Arquitetura, ser arquiteto, discutir arquitetura, tentar ensinar arquitetura é paixão. É uma profissão e curso que até pode ser vivenciado burocraticamente, mas que desta forma logo perderá o caráter da ARQUItetura que tentamos professar.

O texto emocionado da Ana, Pão e Circo é pura ARQUItetura. ARQUItetonicaMENTE falando.

Ao contrário dela, me emociono fácil. O texto tocou no fundo da alma, talvez por estar ansioso em saber os depoimentos dos colegas e alunos sobre a viagem. Apesar de não ter podido estar de corpo presente (em aula no sábado) em espírito vocês podem estar certos de que eu estava lá. Várias vezes durante o sábado me vi pensando sobre o que estariam fazendo, o que estariam vendo, e louco por nosso encontro da segunda-feira na Feevale.

Os textos postados passam alegria, transbordam prazer arquitetônico, apaixonam a quem lê. São puras manifestações de felicidade, através deles acho que conseguimos viajar por outra dimensão da arquitetura, a dimensão dos sentidos. Arquitetura toca a alma, o coração. Arquitetura se vê com o nariz, com os ouvidos, se vê com as mãos, com a pele. Arquitetura é puro prazer.

Os depoimentos dos colegas Ana e Juliano, e com certeza dos outros “sabadarquianos” da estrada, estão fortemente ligados ao depoimento do colega Arthur no post anterior. Sim, ARQUITETURA (verdadeira e boa arquitetura) DÁ FELICIDADE! E que FELICIDADE.

Como professor de História, também sempre me emociono ao visitar qualquer dos lugares que constam de nossa bibliografia básica, uns mais outros menos.

Mas, emocionar-se com o novo é estar com a alma aberta a viver a vida e a arquitetura, experimentar o frio concreto como calor que queima a alma pela paixão da arquitetura, e como disse o Prof. Juliano vindo de Sampa, “o concreto é o melhor amigo do homem” em muitas situações, quando usado correta e coerentemente.

Emocionar-se com o simples, não necessitamos de malabarismos, materiais caros, exuberância carnavalesca, não, a simplicidade é elegância. Singelas soluções de um espetáculo grandioso, como o Museu do Pão.

Arquitetura é espaço, é emoção, é algo a ser vivido e vivenciado. Arquitetura é complexidade, é conjunto de soluções, mas antes de tudo é arquitetura. É como a boa música, que encanta e que nos faz viajar através das melodias, independente de gostarmos de determinado ritmo, nos recheia a alma. Lembro de algumas pessoas na viagem do curso a Buenos Aires em 2007, que ao ouvir Adiós Nonino, no Café Tortoni, e outros tangos saíram embevecidos pela melodia, e talvez muitos deles, nunca tenham parado para ouvir um tango antes.

Ver as leituras e citações da história através do Museu do Pão reforça o que falamos, eu, Ana, Leandro e Juliano (desculpem se esqueço de alguém): a história é puro projeto, olhar a história da arquitetura como fonte insaciável de prazer, estudo e repertorização para nossa profissão. Olhar o passado como referencial para o presente, é entender a história como algo vivo, presente, e que não quer ser copiada, mas entendida!

Arquitetura é tudo, é conjunto! E se falei de história, busco ajuda do velho Vitrúvio e sua tão falada e às vezes mal entendida tríade: firmitas, utilitas e venustas.

Para ser ARQUITETURA não adianta só funcionar (utilitas), e entenda-se funcionar no sentido mais amplo da expressão, funcionar em todos os quesitos arquitetônicos, desde a simples funcionalidade a complexa questão social.que envolve a arquitetura.

Para ser ARQUITETURA não adianta ser perfeito tecnicamente e parar de pé (firmitas), estar de acordo com as mais avançadas normas e técnicas construtivas de construção, suportar terremotos ou tsunamis e atravessar séculos. A durabilidade não garante qualidade arquitetônica.

Arquitetura tem de tocar a alma, tem falar ao coração, tem que ser pura Venustas. Mas obviamente, da mesma forma também não adianta ser só venustas, precisa o suporte da dimensão material para lhe garantir esta qualidade.

E neste sentido é necessário um olhar contemporâneo para o texto de Vitrúvio e entender que a tríade proposta no tratado (citada uma vez só) em nenhum momento se coloca como tríade, de pesos iguais pelo autor, mas que, firmitas e utilitas são dimensões materiais (e fundamentais) da arquitetura que compõe o aspecto fundamental, de VENUSTAS! E entenda-se venustas também no sentido mais amplo de sua acepção: beleza, deleite, prazer,… .emoção. Venustas, o componente abstrato, na dimensão da alma e da emoção que confere à construção algo tão difícil de ser explicado, mas tão emocionante de ser vivenciado, o significado arquitetônico da obra. ARQUItetonicaMENTE falando, o importante é ser ARQUITETURA e boa, como o caso do Museu do Pão.

Para encerrar este confuso post: já dizia o velho Vitrúvio: “o olho procura o belo”, ou o poeta: “desculpem as feias, mas beleza é fundamental.”

NESTE CASO, DESCULPE A SIMPLES CONSTRUÇÃO, MAS ARQUITETURA É FUNDAMENTAL!!!!

E viva o Museu do Pão que nos faz acreditar na possibilidade boa arquitetura entre nós!!!

E vem aí a inauguração da Fundação Iberê Camargo.

Pão e Circo

segunda-feira, 28 abril, 2008

Semana passada, eu conversava com meu colega e amigo, Juliano, parceiro de Bloco, sobre arquitetura e emoção. Juliano, recém-chegado de um feriadão em São Paulo, falava, empolgado, sobre como a arquitetura, dentre todas as artes, era a que mais o emocionava. Eu, em silêncio, admirava a empolgação dele e pensava sobre o quão dura havia me tornado nos últimos tempos. Perguntei para ele o que sentia quando experienciava essa tal emoção – afinal, eu sempre me considero tão insensível em relação ao belo… Ele disse que, quando algo o emocionava, não conseguia parar de pensar. Lembrava do edifício a todo tempo, como uma idéia fixa. A resposta, de certa forma, me surpreendeu. É que mulher costuma associar a emoção às lágrimas. Aliás, emoção dessas, de mulherzinha, eu senti mesmo foi quando vi “O Beijo”, de Gustav Klimt. Fiquei paralisada na frente do quadro, exposto no Belvedere, em Viena. Com um nó na garganta, segurei-me para não chorar, porque meu irmão estava junto. E eu não sei bem o porquê, mas não choro na frente de ninguém da minha família. Agora, edifícios não me levavam às lágrimas. Juliano, então, falou-me sobre o vão do MASP. Relatou-me sobre como aqueles 74 metros de vão livre foram capazes de emocioná-lo. E foi aí que me dei conta de que uma das mais recentes – e fortes – emoções que eu senti aconteceu justamente ali, depois do almoço no restaurante do museu paulista. Entretanto o que eu queria mesmo era contabilizar as experiências exclusivamente arquitetônicas. Aos poucos, comecei a vasculhar a mente e o coração e encontrei minha primeira vez na Grand Place, em Bruxelas; um fim de tarde no Capitólio, todas as vezes em que entrei no Pantheon; a Fábrica de Turbinas do Peter Behrens, em Berlim (como é difícil de chegar!); o Convento de La Tourette; o Pavilhão do Mies…

Só que todas essas impressões fortes poderiam ser atribuídas ao fato de que eu sou professora de História da Arquitetura, e que visitar os edifícios que mostramos em aula é sempre muito legal.

Neste sábado, no entanto, a coisa foi diferente. Fui visitar o recém-inaugurado Museu do Pão, na cidade de Ilópolis, com um grupo de estudantes e colegas da Feevale.

Acostumada a viajar por lugares como Roma, Paris, Berlim, Barcelona, Viena, etc. fiquei muito surpresa e encantada por ter encontrado, na interiorana cidadezinha gaúcha, uma jóia da arquitetura brasileira.

O tempo não estava ajudando. Chuvoso e frio, para surpresa da maioria, que tinha deixado, de mangas curtas, uma quente Novo Hamburgo, três horas antes. Só que, mesmo abaixo de mau tempo, os olhos de todos se iluminaram por causa da tal emoção sobre a qual me falava o Ju alguns dias antes.

O grupo de estudantes era formado por alunos de diversos adiantamentos no curso. Os mais velhos, na ida, reclamavam porque já não conheciam quase ninguém. E os mais novos, debutando em grande estilo. Todos, entretanto, pareciam estar em igualdade de condições para entender a importância daquele dia.

Na chegada, fomos recebidos pelo simpático Ismael. Ismael é uma espécie de Tatoo da “Ilha da Fantasia” de Ilópolis. É extremamente atencioso com todos, demonstra competência e conhecimento da arquitetura, do museu, do pão, das boas maneiras. Transformou-se num verdadeiro mestre de cerimônias da cidade e, mantendo a analogia com o seriado da década de 80, representa a altura seu “Sr. Roarke”, Marcelo Ferraz.

E foi Ismael que nos pegou pela mão e conduziu pelo belo conjunto de Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz, que inclui o Museu do Pão, a Oficina de Panificação e a restauração do Moinho Colognese.

Vendo de fora, talvez por causa das cortinas vermelhas, um Pavilhão Alemão de concreto, em plena colônia italiana. Mas isso se a arquitetura só se percebesse com os olhos. Aprendi com meu caro amigo Ricardo, entretanto, que a arquitetura se vê também com os olhos da pele. E é aí que o singelo Museu do Pão ganha do renomado projeto de Mies. À lisura dos planos neoplasticistas, se opõe a variedade de texturas do concreto combinado à madeira. Tudo bem que no pavilhão tem o travertino (e eu, como moro em Roma, adoro travertino!). Só que a pedra, no prédio de Barcelona, está mais ao alcance dos pés do que das mãos. E no museu gaúcho a riqueza do tato está francamente entregue ao toque dos dedos. Eu não me arriscaria a dizer qual dos edifícios é melhor. Acho a comparação injusta. Mas me diverti muito mais no museu.

Tudo parece ter sido pensado com carinho. E é isso que faz a diferença, já que o cuidado dispensado à arquitetura transpira a cada detalhe do projeto, seja na escolha do logotipo do museu – uma antiga pintura encontrada numa das casas da região, na peraltice de optar por apenas três apoios para segurar a laje da sala de exposições, no projeto do corredor avarandado que margeia a oficina de panificação, no desenho das maçanetas, ou em tantos outros pormenores dos edifícios.

E é o Ismael que transforma o museu em teatro. Manipula as cortinas vermelhas do pequeno auditório como se as estivesse abrindo para permitir o início de um grande espetáculo. Promove cada elemento do projeto a protagonista de uma mise en scène do pão e da arquitetura. Desliza os painéis de madeira que protegem a fachada de vidro de maneira a preparar o prédio para as fotos, como quem arruma o cabelo de uma modelo. No antigo moinho, transforma a demonstração da moagem de milho numa excitante experiência, elevando os espectadores a agentes do processo. Tudo com muita alegria e empolgação. E é aí que o pão encontra o circo. Não da maneira alienante preconizada pela política dos antigos imperadores romanos, mas sim na melhor acepção da expressão, que alude, neste caso, à diversão proporcionada pela cultura e identidade de um povo associadas à boa arquitetura e ao respeito pelo lugar.

Disposto a conversar com todos o tempo todo, nosso anfitrião, que é nativo de Ilópolis, tem um discurso surpreendente sobre os critérios de excelência da arquitetura, mas não se limita a falar do edifício. Conta sobre a importância do processo de restauração do moinho e de construção dos novos edifícios, do envolvimento das pessoas do lugar com o trabalho, de como o projeto todo contou com o comprometimento da comunidade. Ainda que boa parte dos moradores da cidade tenha estranhado as formas dos novos edifícios e muitos ainda hoje pensem que o museu está inacabado (afinal, não tem reboco, revestimento, e tal…), quase todo mundo já reconhece a importância do novo Museu do Pão.

No final do passeio, somos conduzidos à Bodega do Moinho. Enquanto no Pavilhão do Mies nos deparamos com as belíssimas e clássicas Poltronas Barcelona (nas quais não se pode sentar), na bodega, podemos nos acomodar em cadeiras de Lina Bo Bardi. Marcelo trabalhou com a arquiteta no começo da carreira e hoje produz os móveis projetados com ela em sua Marcenaria Baraúna. Acho lindos esses encontros. Certamente a arquiteta ítalo-brasileira teria ficado satisfeita de ver uma cidade 98% descendente de italianos tornar-se palco para a arquitetura brasileira de melhor qualidade. Itália e Brasil, neste caso, unidos também pelo convênio que possibilitou a restauração do museu.

“Cadeiras de Lina Bo Bardi”. A última vez que havia me sentado numa delas foi justamente naquele almoço do MASP. Dei-me conta de que não sou tão empedernida como achava. Afinal, desde ontem não consigo parar de pensar. Pensar no surpreendente museu, no belo dos encontros da vida, como aquele dos italianos com os brasileiros. No encontro de Marcelo e Lina, no encontro de Lina com Ilópolis através de Marcelo. E do meu encontro com o pão. E com o circo da boa arquitetura. Sobre o pão, o museu e a arquitetura acho que os Titãs é que tinham mesmo razão: “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte.”

Vídeo do Museu do Pão

domingo, 27 abril, 2008

Agora temos também um canal no YouTube:

http://br.youtube.com/user/arqfeevale

O primeiro vídeo é da viagem do Sabadarq ao Museu do Pão, abaixo: